Palma, Esparto e Cana
Sobre a Residência Palma, Esparto e Cana
A Residência “Palma, Esparto e Cana”, organizada e promovida pela Câmara Municipal de Loulé, através do Loulé Criativo, reuniu artesãos e criadores contemporâneos em torno de três matérias-primas que fazem parte da memória e identidade do Algarve: a palma, o esparto e a cana.
Durante 11 dias, os participantes mergulharam no universo das fibras vegetais do Algarve, orientados tecnicamente por cinco mestres artesãos locais. A programação foi intensa e diversificada, incluindo saídas de campo para recolha de materiais, workshops de preparação e transformação das fibras e formação especializada em técnicas ancestrais. O foco esteve sempre na prática, na partilha de saberes e na criação de peças originais.
Ao longo da residência, exploraram-se as potencialidades destas fibras naturais, cruzando saberes tradicionais e abordagens inovadoras. O encontro resultou num espaço de experimentação, diálogo e transmissão de conhecimento, valorizando o património imaterial e abrindo caminhos para novas aplicações e linguagens criativas.
Mais do que uma experiência formativa, “Palma, Esparto e Cana” foi uma celebração da cultura local e da sua capacidade de se reinventar, constituindo um espaço de encontro entre gerações, culturas e modos de fazer. Ao longo destes dias de criação e partilha, Loulé afirmou-se como um centro vivo de inovação artesanal e como um território onde as tradições se reinventam e ganham novas vidas.
Estudo de Empreita de Palma (levar uma trança a passear), 2025
isa rodrigues
A peça funciona como um livro de amostras, resultado do estudo e experimentação das técnicas de empreita de palma. O processo manual e repetitivo permitiu explorar a fluidez dos gestos e a relação entre forma, ritmo e material.
A estrutura nasce de uma trança contínua de palma que varia em escala e densidade, criando um volume orgânico que evoca cestos e capachos tradicionais. A obra mantém-se em aberto, simbolizando a continuidade do processo e a aprendizagem permanente.
Materiais: Palma
Mentoria: Flor Guerreiro (Mestra artesã)
Abrigo, 2025
Margarida Valente
Inspirada numa construção agrícola tradicional representada no livro Construções Primitivas em Portugal, Abrigo reflete sobre a necessidade humana de proteção e sobre a fragilidade das nossas defesas.
Realizada em fibra de esparto, a peça assume a forma de uma cápsula que abriga sem ocultar. A transparência e a permeabilidade do material reforçam a ambiguidade entre proteção e exposição, evocando a vulnerabilidade inerente à condição humana.
Materiais: Esparto
Mentoria: Isidoro Ramos (mestre artesão)
Sem título, 2025
Susana Mendez
A peça inspira-se nas chaminés algarvias, reconhecidas pela leveza, pelos padrões rendilhados e pela verticalidade. Construída em cana, incorpora detalhes em palma trabalhada como elemento decorativo, evocando a linguagem arquitetónica da região.
Através da técnica da cestaria, a artista transforma a referência tradicional num objeto escultórico que combina estrutura, luz e transparência, equilibrando tradição e contemporaneidade.
Materiais: Cana e palma
Mentoria: Domingos Vaz, Sónia Mendez (mestres artesãos)
Sem título, 2025
Ana Prates
O projeto resulta da partilha de saberes e do contacto direto com as várias etapas do trabalho em palma — da recolha à tecelagem. Explora a plasticidade e a memória de forma do material: maleável quando húmido e rígido ao secar.
Dessa observação nasceram duas peças — dois candeeiros distintos — que partilham o mesmo princípio construtivo. A “memória de forma” define tanto o comportamento físico da palma como o conceito central da obra.
Materiais: Palma
Mentoria: Flor Guerreiro (Mestra Artesã)
Ressonâncias, 2025
Sonia Lekuona
Ressonâncias procura captar os sons primordiais do ser humano através da cana como matéria principal. Inclui um registo sonoro acessível por QR code que reúne sons recolhidos durante o processo de criação: o vento, o corte da cana, o fabrico e as canções entoadas pelo mestre Domingos.
A peça integra elementos interativos que permitem ao público produzir som e participar na obra. Entre o sopro e a percussão, propõe uma experiência sensorial que une criação manual e expressão musical.
Materiais: Cana, palma
Mentoria: Domingos Vaz, Olimpia Cabrita (mestres artesãos)
Albarda para Burros Cansados, 2025
Carla Rebelo
Inspirada em imagens do Museu de Faro que documentam o trabalho rural e a relação entre o homem e o animal, Albarda para Burros Cansados associa a memória do território às técnicas aprendidas durante a residência. Construída em cana e malha de palma, a peça remete para as albardas usadas no transporte de carga.
As cestas laterais, abertas e incompletas, simbolizam o desequilíbrio do trabalho rural e a fragilidade dessa relação. A composição joga com as ideias de equilíbrio e rotação, peso e leveza, transparência e sombra, transformando a referência funcional em reflexão escultórica.
Materiais: Palma, Cana
Mentoria: Domingos Vaz, Olímpia Cabrita (mestres artesãos)
Invassoura, 2025
Milena Kalte
A coleção Invassoura é composta por cinco vassouras de diferentes formatos e dimensões. O nome resulta da fusão entre “invasoras” e “vassouras”, refletindo o diálogo entre espécies vegetais nativas e invasoras — o esparto, a cana e a erva-das-pampas.
Através do entrelaçamento dessas fibras, a artista propõe uma reflexão crítica sobre as noções de pertença e exclusão, tanto no território natural como no social. Retirada da esfera doméstica, a vassoura é apresentada como símbolo de resistência e questionamento das fronteiras entre o útil e o marginal.
Materiais: Esparto, Cana
Mentoria: Isidoro Ramos (mestre artesão)
A Alma do Pastor, 2025
Rita Neves
A Alma do Pastor nasce do desejo de reinterpretar a bolsa tradicional em palma, preservando a essência das técnicas artesanais e propondo uma abordagem contemporânea. A peça assume a forma de uma bolsa tiracolo semi-esférica, com corpo em malha de palma e alça em empreita.
O sistema de abertura e fecho inspira-se na bolsa de pastor, em que a alça funciona como eixo. Este detalhe serve de ponte entre a tradição e o design atual, atualizando um objeto de uso quotidiano para um novo contexto estético e funcional.
Material: Palma
Mentoria: Sónia Mendez (mestra artesã)
Rodilha, 2025
Alba Castro
Inspirada nas imagens de mulheres que transportavam sal à cabeça no Algarve, Rodilha presta homenagem à força feminina e à capacidade de equilíbrio física e simbólica. A peça evoca as rodilhas de tecido usadas como apoio e conforto, chamando a atenção para as cargas visíveis e invisíveis que todas carregamos.
Estabelece uma ponte entre a Galiza e Portugal através da técnica partilhada da empreita de bicos (ou pico, em galego). Realizada em palma algarvia e cosida segundo o método dos chapéus galegos San Cosmeiros, incorpora uma alma de esparto que lhe confere peso e presença escultórica.
Materiais: Palma, Esparto
Mentoria: Flor Guerreiro, Olímpia Cabrita (mestras artesãs)
Sem Título, 2025
Santiago Besteiro
A peça parte da investigação sobre objetos rituais e a sua função nas comunidades humanas. Explora formas arquetípicas, como o círculo e o nó, associadas à eternidade, à proteção e à união. Inspirada por referências diversas — das armadilhas de pesca do Museu de Faro aos cestos de adivinhação africanos —, a obra reflete sobre o papel simbólico do ritual enquanto estrutura de coesão social e espiritual.
Entrelaçando couro e palma natural ou tingida numa tecelagem em espiral, o artista propõe uma reflexão sobre a ligação entre o sagrado e o artístico, e sobre como a perda dos rituais coletivos acentua o individualismo contemporâneo.
Material: Palma, fio de cabedal
Mentoria: Sónia Mendez (mestra artesã)
Palmafone
Teresa Almeida
A peça foi inspirada no efeito sonoro produzido pelo entrelaçar das palmas. Esses subtis sussurros evocaram a ideia de criar uma forma semelhante a uma vasilha ressonante, capaz de sugerir a emissão de um som.
Para sublinhar essa sua génese, e em substituição de um aparelho que reproduzisse o som resultante desse entrelaçar, o seu interior contém matérias que replicam essa experiência sonora.
Material: Palma
Mentoria: Flor Guerreiro (mestra artesã)
A Espiral da Vida, 2025
Pilar Rodriguez Rivas
A peça apresenta uma espiral tridimensional de cana e palma suspensa por um contrapeso de pedra, articulando leveza e densidade. A espiral, símbolo de transformação e continuidade, sugere um movimento ascendente e descendente, remetendo para o ciclo da vida e da renovação.
O contrapeso de pedra evoca a gravidade e o enraizamento, contrapondo-se à fluidez da fibra. O conjunto estabelece um equilíbrio subtil entre matéria e energia, convidando à reflexão sobre o movimento, a origem e o retorno.
Material: Cana, Palma
Mentoria: Domingos Vaz, Olímpia Cabrita (mestres artesãos)
Mestres Artesãos
- Sonia Mendez – Palma
- Florentina Guerreiro (Flor) – Palma
- Olímpia Cabrita – Cana e palma
- Domingos Vaz – Cana
- Isidoro Ramos – Esparto
Participantes
- Alba Castro (ES)
- Ana Isabel Prates (PT)
- Carla Rebelo (PT)
- Isa Rodrigues (PT)
- Margarida Valente (PT)
- Milena Melikate (PT/ALE)
- Pilar Rodriguez Rivas (ES)
- Rita Neves (PT)
- Santiago Besteiro (ES)
- Sonia Lekuona (ES)
- Susana Mendez (PT)
- Teresa Almeida (PT)
Organização
Câmara Municipal de Loulé / Loulé Criativo
Local
Loulé
Mentor de Design
Henrique Ralheta – Loulé Criativo