Alinhados pela Mesma Lã
Sobre o Alinhados pela Mesma Lã
A residência artística “Alinhados pela Mesma Lã” é uma iniciativa da Câmara Municipal de Loulé / Loulé Criativo que celebra a lã da ovelha churra algarvia — a única raça churra de ovinos autóctone do sul de Portugal.
Com o propósito de valorizar este património natural e cultural, o projeto reuniu artistas e designers num processo criativo que acompanhou a lã desde a tosquia e lavagem, passando pela fiação e feltragem, até à criação de peças únicas.
Ao longo da residência, foram exploradas técnicas tradicionais e contemporâneas, num diálogo entre o saber artesanal e a inovação, revelando novas possibilidades para este material singular e sustentável.
O resultado desta experiência é um conjunto de obras que refletem a identidade, a memória e o território algarvio, unindo tradição, criatividade e sustentabilidade.
A residência contou com curadoria de Vasco Águas e o apoio da Algarchurra – Associação de Criadores de Ovinos da Raça Churra Algarvia e da Paula e Pedro Neves, responsáveis pela vertente formativa dedicada ao ciclo da lã e à fiação.
O projeto culminou numa exposição no Palácio Gama Lobo, em Loulé, onde o público pôde conhecer e experienciar o resultado desta ligação entre arte, natureza e comunidade.
Alinhados pela Mesma Lã - Video, 2025
André Matos e Vasco Águas
Um registo audiovisual da tosquia e das vozes de dois pastores do Algarve (José Silva e Raul Contreiras) que partilharam o seu saber e a sua relação com a ovelha Churra Algarvia.
Produzido por Vasco Águas
Filmado e montado por André Matos
Duração: 14'14''
Alte, Santa Bárbara de Nexe
2025
As Marcas da Terra, 2025
Rita Martins Pereira
A série reflete múltiplas referências ao território algarvio: as chaminés trabalhadas em losangos, as texturas do esparto e da cana, a irregularidade própria da lã churra e as suas características mechas longas. As peças evocam também a ideia de cicatriz, associadas às marcas deixadas na lã e à memória impressa nos corpos das ovelhas.
Cada tecelagem é um registo material e simbólico da identidade da região, transformando elementos tradicionais em linguagem contemporânea.
Cinco painéis com dimensões variáveis.
Lã churra algarvia, fio de lã laranja, juta, linho, esparto e cana.
Tecelagem manual em tear
Devagar, 2025
Maria Terra
Devagar é um conjunto de dois autómatos e dois painéis que exploram o tempo do fazer como gesto criativo e poético. Através da madeira e da lã churra algarvia — materiais que exigem paciência, escuta e relação com o território —, a obra reflete sobre o ritmo do campo, o tempo invisível do trabalho artesanal e a ligação entre o humano e a matéria. Entre Lisboa e Loulé, Devagar é um regresso à terra da minha família — um reencontro com as origens, com o gesto e com o território —, um exercício de atenção, onde o ato de criar se torna uma forma de
cuidar e de permanecer.
Madeira e lã churra algarvia.
O Ciclo da Lã, 2025
Vasco Águas
Esta instalação mostra as principais fases da
transformação da lã — da tosquia à fiação — destacando os saberes tradicionais associados à ovelha churra algarvia, raça autóctone do Algarve.
Três estruturas para exposição em madeira de pinho com 200 x 124 x 40/50 cm.
Velo de ovelha Churra Algarvia feltrado, lã churra algarvia em diversos estados — natural, lavada, picada e cardada —, picker, cardas manuais, crânio e cornos de ovelha Churra Algarvia, alguidares de barro, frasco de vidro, meadas de lã churra algarvia, roda de fiar, fuso.
Casulo, 2025
Susana Mendez
Esta obra surge como um casulo têxtil, evocando abrigo, transformação e continuidade. Criada a partir da lã da ovelha churra algarvia, valoriza a fibra em todas as suas etapas — desde a mecha em bruto ao fio, fiado manualmente. Tecida manualmente em padrão de favos, ganha volume e textura tridimensional, remetendo para células vivas em expansão. A tonalidade escura da lã, rara nos rebanhos, reforça a singularidade da peça e sublinha a importância da sua preservação.
Mais do que um objeto têxtil, este casulo é um símbolo de memória, identidade e metamorfose, onde tradição e contemporaneidade se entrelaçam.
Dimensões aproximadas: 180 x ø 55 cm Lã da ovelha churra algarvia, outras lãs portuguesas, estrutura de cana.
Tecelagem manual e feltragem.
Corpo Pastoral (Obra Coletiva), 2025
Alinhados pela Mesma Lã
Como um manto tecido em conjunto, esta obra nasce do encontro entre mãos, memórias e paisagem. É um patchwork criativo que guarda os gestos da residência Alinhados pela Mesma Lã, onde cada fragmento é testemunho de escuta, cuidado e ligação profunda à ovelha Churra Algarvia e ao território que a acolhe. Uma cartografia afetiva que não é apenas tecido: é território partilhado, é gesto coletivo, é permanência.
Dimensões aproximadas: 250 x 100 cm.
Lã, lã churra algarvia; tecelagem, feltragem molhada,
costura, bordado e crochê.
Topografia da Sombra, 2025
Rita Teles Garcia
Esta peça tem como origem a pedra do Barrocal Algarvio, matriz que inspira formas e ritmos. Sobre bases de lã churra algarvia, feltrada e bordada com padrões geométricos que reinterpretam as linhas e fraturas da paisagem calcária, erguem-se estruturas em cobre, cuja tonalidade ecoa os tons quentes do Barrocal. O diálogo entre o cobre e o feltro gera um jogo de luz e sombra, sugerindo projeções efémeras, onde a rigidez mineral encontra a suavidade têxtil. Estas esculturas tornam visível a ligação entre território, memória pastoril e gesto artístico contemporâneo.
Oito peças com dimensões variáveis.
Arame de cobre, lã churra algarvia, lã bordaleira da Serra da Estrela, pedra do Barrocal Algarvio; escultura,
feltragem molhada sólida, feltragem de agulha, bordado.
Peso e Murmúrio, 2025
Cláudia Moreira
O diálogo entre peso e a leveza foi o ponto de partida na conceptualização da obra. O que cai, amarra e prende em contraste com o translúcido, suspenso e o que flutua traduz-se numa relação física próxima entre os cabos e os painéis-véu. A composição habita o espaço. Cria-se uma narrativa entre os diferentes elementos tridimensionais e a luz que os toca.
Dimensões aproximadas: 350 x 200 cm.
Lã churra algarvia; feltragem molhada sólida, teia e
cordão, feltragem de agulha, tinturaria natural de índigo,
bordado e tricô.
A Capa da Churra, 2025
Ana Seromenho
O ponto de partida é a ovelha Churra Algarvia e a sua
cobertura de lã. Pescoço e peito nus, parece trazer uma capa sobre si. Foram estes os gatilhos e a principal inspiração para estas três capas.
Um manifesto de cor, uma imposição de presença.
A Churra Algarvia precisa ser vista. Três capas com dimensões aproximadas de 160 x 70 cm cada.
Tecido manual 100% lã; botões em madeira de
alfarrobeira.
Tinturaria natural, tecelagem e costura.
Cartografia Fragmentada, 2025
Luísa Leão
A peça traça um mapa íntimo e irregular, feito de fios, fragmentos e memórias. Entre a lã churra algarvia em bruto e pedaços de um lençol de família herdado, emerge a presença do têxtil como elo entre gerações. O trabalho revela percursos internos que se inscrevem no gesto e no tempo, onde a matéria se fragmenta para depois recompor-se em formas mais expansivas. Cada camada evoca uma topografia sensível de descobertas, em que o corpo da obra guarda rastros de memória e reinvenção - uma cartografia fragmentada, mas inteira em seu processo de descoberta.
Dimensões aproximadas: 327 x 148 x 9 cm.
Fiação, feltragem, costura, bordado e crochê em lã churra algarvia e lençol de algodão.
Artistas em Residência
Ana Seromenho
Cláudia Moreira
Luísa Leão
Maria Terrra
Rita Martins Pereira
Rita Teles Garcia
Susana Mendez
Educadores e Mediadores do Saber-Fazer Tradicional da Lã
Paula Neves
Pedro Neves
Apoio Técnico e Parceria Estratégica
Agarchurra – Associação de Criadores de Ovinos da Raça Churra Algarvia
Anfitrião
Loulé Criativo
Curadoria e Arquitetura da Exposição
Vasco Águas
Coordenação da residência artística
Marília Lúcio
Joana Afonso Dias